Bloco de Mosaicos ou Tchau Vulva!


A Coletiva Vulva da Vovó
, no primeiro ano de existência, já passou por algumas despedidas. A mais recente delas aconteceu agora no início do ano de 2016: tivemos de lidar com a mudança de cidade de Marina Soares, uma das atrizes do espetáculo Sobre as Baleias em processo de criação.

É sempre difícil ter de se separar de companheiros de trabalho e criação mas isso não significa que a separação também não tenha sua importância na construção de um coletivo – no nosso caso um grupo de teatro.

Desde sempre a Coletiva Vulva da Vovó foi organizada a partir de pressupostos amadores do fazer teatral. O que isso quer dizer? Quer dizer que para estar junto fazendo teatro, criando cenas e experimentos e discutindo estética, as integrantes da Coletiva nunca tiveram de passar por nenhum 12366183_1048118605208924_9162410492266376870_otipo de crivo técnico que legitimasse ou não sua participação no grupo como proponentes artísticas. Por isso a Vulva da Vovó é formada por pessoas de diversas áreas de atuação social; nesse sentido podemos dizer que os discursos da psicologia, ciências sociais, pedagogia, da composição musical etc. permeiam a criação cênica de Sobre as Baleias e dos demais experimentos realizados.

Um grupo de teatro amador se faz pela necessidade coletiva de produzir e compartilhar materiais simbólicos que criem sentidos outros para o fluxo social normativamente estabelecido. Exatamente por isso, do ponto de vista da mercantilização da produção artística, esse trabalho amador não serve para nada – e é esse nada que nos provoca pois no “vazio de sentidos mercadológicos” habita resistentemente o acontecimento experiencial que tem por finalidade não o resultado, o lucro ou a superação material, e sim a própria realização, a ocasião efêmera de sua constituição e desconstrução ante o olhar do público.

Marina vai para as terras de Campinas estender o trabalho simbólico da Vulva da Vovó e do feminismo na área da saúde mental pública. Temos muito orgulho de ter dividido o espaço dos ensaios com uma integrante tão dedicada à criação e à elaboração de um pensamento sobre a cena distante das normas machistas que muitas vezes, silenciosamente, compõem os quadros estéticos e políticos existentes no teatro de São Paulo.

No final das contas, um grupo teatral precisa se haver com uma dinâmica de encontros e distanciamentos, uma dinâmica vivíssima entre o particular e o coletivo. É como se juntas organizássemos através de nossos corpos e pensamentos um bloco fluido de mosaicos, a expressão da totalidade pelo caco, pelo quebra-cabeça, um painel de diversidade em que as singularidades aparecem não como inimigas, mas como elementos fundantes do discurso coletivo.

Vai bem Marina e volte de vez em quando pra nos contar! Viva La Vulva que mora também nas distâncias!!

 

cadernos de direção – reflexão sobre a partida da Marina

janeiro de 2016

 

 

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