Carol, Thelma e Louise

                   carol

crítica

 

Fosse pela textura perolada de todas as cenas, ou pela beleza das atrizes que conduzem a trama, Carol poderia participar sem dúvida e de modo expressivo do panteão de filmes sobre amor entre mulheres da cultura ocidental. Entretanto, em nosso tempo, não podemos deixar de tratar as recentes produções cinematográficas de temática feminista sem levar em consideração os avanços e retrocessos característicos das guinadas de nossa sociedade no tocante às políticas de gênero e às medidas de proteção à comunidade LGBTT.  Pode-se dizer que Carol traz à tela uma leitura de fetiche formal sobre a relação entre mulheres na década de 50, em uma América do norte bastante conservadora e machista.

Começo esse texto comentando sobre os efeitos sonoros e aspectos visuais do filme por perceber que eles são opções que fundam o discurso romântico sobre a história de amor de Carol, interpretada por Cate Blanchett em definições supreendentemente duras, e Therese, interpretada por Rooney Mara. Isso significa que a fotografia, composição de cores, velocidade das cenas e trilha sonora são elementos articulados sob medida para a criação de uma atmosfera lírica, quase sublime, que enreda as duas principais personagens em seus encontros amorosos ou semi-amorosos. Nesse sentido, as cenas compõem uma totalidade realista protegida, bela, inatingível mesmo para a violenta investida do poderio patriarcal representado pelo marido de Carol que tenta de todas as maneiras mantê-la sob a égide do casamento – o que já é impossível no ponto em que a história se inicia, haja vista que sua quase ex-mulher (os dois estão se divorciando) tem clareza de sua orientação sexual e da impossibilidade de convivência matrimonial em um mar de aparências.

A proteção pela beleza no decorrer de todo o filme acaba gerando um desajuste quanto à questão do direito das mulheres à liberdade sexual e à própria sexualidade no período histórico correspondente à trama. Ao que parece, a personagem Carol faz tudo que quer, na hora em que quer, e vive as consequências de suas transgressões de forma plena, altiva e elegante, de modo a inviabilizar uma leitura do espectador às reais resultantes do que seria a assunção do lesbianismo pela classe média branca (a classe que primeiro teve direito de calcar a discussão sobre orientação sexual e identidade de gênero) na década de 50. Para que se saiba: o assédio dos pais de família sobre essas mulheres não se limitou à exclusão do nome de suas esposas da folha de herança, ou ao sequestro da guarda dos filhos e filhas (como constatado no filme); houve atitudes muito mais graves de perseguição, tortura e assassínios simbólicos e físicos impingidos àquelas que não se submetiam à heterossexualidade compulsória, vigente nas sociedades patriarcais até os dias atuais.

Além disso, como comentado, o filme tanto abranda a problemática que, mais uma vez, apaga a existência de mulheres homossexuais negras, latinas e pobres nos Estados Unidos. Evidentemente, o recorte de classe e raça escolhido pelos autores da película não deve ser desmerecido apenas por se referir a uma camada específica da sociedade, mas é de suma importância frisar como os filmes de ampla divulgação  sobre mulheres (vide o recente As Sufragistas, em cartaz ainda nos cinemas) na maioria das vezes se realiza através da experiência dominante, isso é, das classes e raças abastadas e prevalecidas social e politicamente no globo.

Diante disso, a pergunta que Carol pode suscitar nesta crítica é: qual o tema do filme? A opressão sobre as mulheres lésbicas na América cinqüentista ou o famigerado e generalizante amor? – Pois sim, se Carol se trata da irremediável atração amorosa entre duas pessoas, independentemente de suas identidades de gênero e orientações sexuais, então temos um filme esteticamente inócuo. O rígido bem estar (que se manifesta mais como uma expressão monolítica do que como um traço complexo de personalidade) da personagem–título e seu sucesso pessoal ante todas as medidas punitivas do ex-marido e da sociedade faz com que ela soe mais como uma heroína inquebrável e única do que como uma entre tantas mulheres que foram (e são) sistematicamente apunhaladas pelas normas e morais patriarcais. Isso é, a protagonista de Cate Blanchett não existe. Mas existe porque o filme se propõe a ser uma fatia da realidade segundo as dimensões realistas apresentadas cenicamente. Temos aí uma contradição dramaticamente impraticável.  Carol é uma mulher impossível em uma Nova York real, de uma década real, de um país conservador real.

Por que falar sobre uma relação entre duas mulheres com o acréscimo de serem de gerações diferentes (indicações no filme dão a entender que Carol tem mais de quarenta anos e Therese, menos de vinte e cinco), classes diferentes, do mesmo jeito que se falaria da relação entre um homem e uma mulher (com o adendo, por assim dizer, das dificuldades de uma separação conflituosa do homem com sua esposa)? Aproveito-me da questão para expandi-la à seara da raça: mudar a cor do/a protagonista de um filme e manter a história absolutamente igual é suficiente para fundamentar e fortalecer a representatividade da população negra no cinema e nas artes cênicas em geral? Ou existem questões singulares intrínsecas à raça negra que não devem ser ignoradas nem mesmo nos filmes mais comerciais do circuito?

No caso de Carol, a inversão simétrica de gênero desfavorece a originação de um universo lésbico específico em que outras verdades sobre a relação entre duas mulheres sejam concebidas simbolicamente, de modo que se possam constituir não apenas indivíduos contracorrente, mas contextos e imaginários que respondam à norma de modo criativo e não reprodutivo.

Em Thelma e Louise, filme dirigido por Ridley Scott e lançado no ano de 1991, as duas personagens, assim como ocorre em Carol, realizam uma viagem literal e metafísica: a primeira é a travessia dos Estados Unidos rumo ao México para que possam fugir da polícia, a segunda é a viagem para dentro de si mesmas e do próprio histórico de opressão vivido por ambas até ali.

thelma

O que viria a ser um passeio de final de semana de duas grandes amigas acaba se tornando uma frenética fuga dos tentáculos de uma existência cerceada pelo machismo, pelo autoritarismo da instituição policial, estatal e familiar. Thelma e Louise é, portanto, um filme que evidencia uma cosmogonia lésbica, apesar de não dizer respeito a uma relação erótica strictu sensu como em Carol, por exemplo. Thelma e Louise nos amplia as percepções sobre o amor entre mulheres, pois não o esquadreja pela régua da heteronormatividade nem o enfia no escaninho do romantismo,  muito pelo contrário, um único beijo na boca durante as duas horas e dez minutos de filme sela simbolicamente o vínculo entre as duas personagens de forma a expandir as apreensões clássicas do erotismo romanesco para um terreno de compreensão palpável no qual a cumplicidade leva as personagens à ação erótica. O lesbianismo, nessas circunstâncias, escapole do eixo libidinoso formatado pelo patriarcado e se torna expressão de ideia política: o amor entre mulheres não serve aos homens, mas a elas mesmas.

Carol e Thelma e Louise apresentam temas semelhantes, mas sua abordagem estética os distancia profundamente. Thelma e Louise, em 1991, parece ser um filme muito mais questionador e ousado no que diz respeito à emancipação das mulheres nos Estados Unidos do que Carol que, em 2016, ressoa satisfeito (ou resignado) com os próprios efeitos formais, sua música celular incessante e a ideia de um namoro higienizado e quase fantasioso das amantes.

 

 

Por Paloma Franca Amorim

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