Que Pena, Fernanda Torres

Devo começar dizendo que fiquei consternada com o texto “Mulher” de Fernanda Torres no blog da Folha, ela sempre foi uma mulher que admirei muito. Ela começa bem o texto, mas consegue destruir os primeiros dois parágrafos, que são os únicos que se salvariam, com uma afirmação deplorável. Pois bem, ao longo desses dois primeiros parágrafos, ela discorre sobre a diferença entre homens e mulheres deixando clara a opressão feminina em oposição à liberdade masculina, mas aí ela destrói tudo ao dizer que algumas correntes defendem que essas diferenças entre homem e mulher são culturais, enquanto que para ela, essas diferenças são biológicas e intrínsecas, ou seja, em apenas uma frase, ela simplesmente invalida todo o discurso político que tentou construir anteriormente.

Nas últimas semanas nas redes sociais, e há séculos a fio na vida cotidiana, estamos passando por uma discussão intensa sobre maternidade, mulheres tentando desconstruir o mito da maternidade romântica, denunciando pais ausentes, cobrando a presença deles na vida dos filhos e aí vem a Fernanda Torres e diz “podem ficar ai berrando, que nada vai mudar, porque o acaso biológico quis que assim fosse”.
Que desserviço, Fernanda.

Uma mulher que ocupa um lugar como o dela, uma figurinha pública, que é atriz e escritora, não pode cometer erros crassos de vocabulário como confundir machismo com masculinidade. Duvido que as memórias de infância que ela diz ter com machões, que vão de Millôr a Miéle, estejam vinculadas à violência doméstica, sexual e opressão. Ela está falando de intelectuais de esquerda, de figuras masculinas que ela admira, e que sim, são machistas porque todos somos (costuma-se dizer no contexto feminista que nós, mulheres, reproduzimos o machismo), porque vivemos numa sociedade patriarcal e misógina. Não, eu não estou sendo radical, é só pensar um pouco: homofobia (“homem que ocupa o lugar da mulher”), transfobia ( “homem que quer ser mulher, ou mulher que ousa entrar no mundo masculino”), lesbofobia (“mulheres que não precisam de homem”), tudo deriva e gira em torno do ódio à mulher. E pela Fernanda ser quem é, não ter feito essa simples digressão, e não ter percebido que o que ela admira no Miéle e no Millôr, não são os preconceitos machistas deles, e que não devemos ovacionar esse tipo de postura porque ela põe em risco a vida mulheres,  é inadmissível.
Quando fala da magia de Irene, ela está rememorando o olhar dela de moleca bem nascida, naquele contexto, sobre sua babá negra, Irene. Agora, será que ela perguntou para Irene como ela se sentia com homens babando em cima dela vinte e quatro horas por dia? Porque passar por isso no Leblon é uma coisa, passar por isso no Morro do Alemão, é outra.
E se sim, a Irene gostava e se sentia empoderada por receber cantadas, primeiro temos que pensar não dá pra tirar a parte pelo todo, principalmente tratando-se de mulheres negras que são as que mais morrem em decorrência do machismo, e segundo, temos que refletir: porque é que sempre precisamos de um olhar masculino para nos sentirmos aceitas, bonitas, gostosas? A própria Fernanda diz que sempre invejou as cantadas que Irene recebia, ao passo que ela nunca recebia nenhuma. Mais uma vez, nós, mulheres, fazendo exatamente o que o patriarcado quer: disputando a atenção masculina, criando rivalidade entre nós e precisando de um olhar masculino para nos validar. Então não, Fernanda, o fato de Irene receber mais cantadas que você, não tem a ver com magia, tem a ver com contexto histórico-cultural, tem a ver como fato de vivermos numa sociedade recém-saída da escravidão, onde a “mulata” é a “carne” mais desejada do mercado, mas só pra comer mesmo, porque não sei se você sabe mais quanto mais escura a pele da mulher mais ela tem dificuldade de ter um relacionamento estável (vide texto A Solidão da Mulher Negra).

Ou seja, essa fala é completamente leviana, tão leviana quanto chamar Irene de mulata (que vem de mula, que é um bicho estéril, e era como os senhores de engenho chamavam as escravas que eles estupravam, já que elas não poderiam ter filhos deles, pois se engravidassem teriam de abortar, ou teriam os filhos que seguiriam sendo escravos por conta da não responsabilidade de paternidade),ora, fica feio para uma mulher escritora, que mexe com palavras, ir atrás de algumas etimologias e descartar outras.
Outro erro é achar que as feministas estão em busca de neutralidade! Que coisa mais rasa e mentirosa! A única coisa que estamos querendo é que paremos de ser tratadas como um pedaço de carne, a Fernanda mesmo disse que nunca passou por isso, agora imagina que você é uma mina negra, de Salvador, por exemplo, que com nove anos de idade, andando sozinha na rua ouvia “queria chupar essa xoxotinha toda” e corria para casa com medo de ser atacada. É disso que estamos falando e não de FLERTE, assédio não tem nada a ver com flerte, meu deus do céu!
Nós temos que parar com essas ignorâncias, isso só nos coloca umas contra as outras, como se estivéssemos falando línguas diferentes, não estamos! Duvido que a Fernanda concorde que meninas sejam assediadas e desrespeitas, que sejam “paqueradas” SEM o seu consentimento e de forma brutal. E o que me consterna, é ela não ter pensando nisso quando escreveu o texto.
Dizer que o Brasil é um meio termo entre Alemanha e Marrocos, e pura e simples falta de estudo de dados, o que ela relata que passou no Marrocos e não gostou, era o que a Irene passava todo dia, vejam só!

E terminar o texto, com aquele parágrafo de que a mudança está em nós mesmas, é um dos maiores desserviços que se pode prestar à mulheres. Estamos falando de que aqui? De conseguir fazer posições de yoga desafiadoras e alcançar a paz interior ou de mulheres que morrem por conta de violência doméstica porque não tem condições de sair de casamentos abusivos, por mais que sua vontade de sair das amarras do machismo seja gigantesca?
Fernanda fala no texto que tem inveja do companheirismo masculino, e o que me pergunto é: onde está o companheirismo dela, a sororidade, a alteridade, para com as mulheres que não estão na fatia do texto em que ela recorta, e ao que parece, nem percebe que recorta?
E aí que se começa a construir o companheirismo feminino, e não ovacionando a intimidade dos amigos homens com amigos homens e dizendo que o problema está na gente, em como lidamos com nossa autoestima e com nossas amizades. Essa relação de nós conosco mesmas e com outras mulheres não nasceu do nada, querida Fernanda. Virgina Wolf fala muito sobre isso no livro “Um Teto Todo Seu”, sobre como a literatura e a dramaturgia, que sempre foram domínio masculino, são vitais na construção das relações entre mulheres e homens, relações que tecemos até hoje. No livro ela diz que o fato das personagens femininas sempre serem escritas a partir do olhar de um sujeito masculino, criou essa rivalidade entre nós, essa disputa entre mulheres por conta de homens e essa dependência por uma olhar masculino para nos validar. Se você pode escrever hoje, querida Fernanda, é graças a Virgina Wolf, por exemplo, que com o feminismo que você diz ser vitimização, galgou esse espaço para nós. Se hoje você pode fazer essa afirmação leviana de que “o machismo não te incomoda”, é graças a mulheres como ela, que garantiram sua liberdade de expressão. Então é, no mínimo, desrespeitoso colocar a virilidade do Miéle e do Millôr acima de questões como esta. E aí é que está, nós, que não temos medo de dizer que somos feministas, queremos complementar Marx com Virgínia, Focault com Hannah Arendt, e não estar ACIMA dos homens. Aí é que está o problema desse olhar raso sobre o feminismo.

Nós escritoras Fernanda, temos a responsabilidade de criar um novo inconsciente coletivo, de disseminar o amor, o companheirismo, entre mulheres, e não de manter o status quo. Ainda mais nós, que somos mulheres de esquerda com lugar de fala privilegiado, você mais do que eu, por ser uma celebridade.

Enfim, mais uma autora, que usa seu espaço na mídia para apontada o dedo na cara de outras mulheres ao invés de dar a mão a elas. Uma pena você querer ser melhor suficiente para ser homem, e não para se tornar uma mulher.

 

 

Maria Fernanda de Barros Batalha –

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