8 de Março

Uma vez, uma única vez, quando eu tinha treze anos, decidi sair na rua vestida de menino. E vou explicar por que foi apenas uma vez.

Pus um camisão que tinha em casa, um boné para prender meus cabelos, uma bermuda também larga que encontrei no armário e segui para o supermercado. Fiz menos em nome da tendência ao projeto do teatro e da performance em minha vida e mais por uma curiosidade de me ter ali, em escala pública, inteiramente outra, isso é: outro.

felipinho

Ao chegar ao supermercado, vi uma menina que estudava comigo e fiquei muito constrangida pela brincadeira. Fiz as compras me escondendo, medrosa por achar que seria alvo de deboche ou de pira-porrada na escola caso fosse descoberta minha verdadeira identidade. Parei o experimento nesse dia. Por isso uma vez só eu me vesti de menino, mas foram várias as situações, ao longo de minha vida, em que eu quis ser homem.

Desde pequena me chamava atenção a facilidade que tinham os rapazes de ficar amigos entre si, nas margens  d’uma conversa e d’outra já se estabelecia uma camaradagem que eu até então nunca travara com nenhuma coleguinha. Era difícil ser amiga de meninas, era difícil porque aparentemente vivíamos em rivalidade.

Quem tem a boneca mais linda?

E o sorriso mais brilhante?

E o namorado mais bonito?

E o corpo mais esbelto?

E menos celulite?

Durante a minha adolescência eu invejei a liberdade que percebia nas rodas masculinas por notar que existia ali um outro tipo de referencial para que as relações de cumplicidade acontecessem. Eles riam de si, falavam de nós, tinham o poder de comentar sobre o mundo e sobre as coisas de forma espontânea. Nós não. Nós não podíamos ter pelos na perna ou falar palavrões em demasia. Não podíamos arrotar e rir disso como eles faziam. Era feio. Ninguém haveria de nos querer caso fôssemos tão ousadas.

Pois bem, não sei se por acaso ou desacato meu ao que me fora imposto, nunca ninguém me quis. E isso em alguma medida poderia me favorecer, uma vez que os meninos não me viam como menina e sim, talvez, quem sabe um dia?, como um deles. Não era dada às vaidades e por isso mesmo meu apelido era Maria Machinho. Eu ficava ofendida mas ao mesmo tempo percebia ter um passe livre para certas nuances do comportamento masculino que eu associava à liberdade.

Na faculdade fui, oficialmente, recebida na Casa dos Homens. Eu era inteligente e boa de boteco, vencia os desafios do álcool com uma mão nas costas. Adquiria o reconhecimento e o respeito dos caras, eu me sentia acima das mulheres sufocadas que eu em nada admirava. Eu era um deles. Era amiga deles e podia arrotar, falar palavrão, gritar, opinar sobre estética e política. Era como se minhas roupas de moleque, daqueles idos treze anos, agora fizessem parte de minhas entranhas, como vestes sanguíneas, intrínsecas.

Enquanto minhas colegas continuavam disputando, eu me aprofundava naquele universo de meus camaradas e me sentia privilegiada por ter sido tão bem recebida, depois de tantas provações.

Até o dia em que eu dei um beijo em um deles e começamos a ter um trelelê. Com o tempo, percebi que a atitude dos demais companheiros mudou em relação a mim, não falavam mais de certos temas em minha presença e, muitas vezes, deixavam de me chamar para a botecaria quando não era conveniente para o meu namoradinho. Eu perdera o ingresso e o bonde continuou andando.

O namoro não durou quase nada, mas quando tentei voltar para os antigos rituais de nossa amizade, já era tarde: meu corpo já havia sido discutido em alguns encontros, minhas condutas sexuais, meus dissabores de humor. O pior acontecera: meus camaradas começaram a me ver como mulher.

Diante desse espelho inelutável, eu mesma tive de admitir minha falha na empreitada: eu não poderia entrar na Casa dos Homens e desrespeitar o parágrafo único que condicionava minha estadia ali: não ousarás possuir desejos e querer mais do que os quereres que te oferecermos.

Ao observar os detalhes de meu reflexo amedrontador e rebaixado eu, por minha conta e risco, precisei olhar para além, adiante do que havia sido prescrito para minha estadia no mundo, na Casa dos Homens, na Casinha de Bonecas, na Cozinha ou no Altar. Precisei atravessar as portas que não existem e me deparar com aquelas que eram iguais a mim.

Em nosso espetáculo (também alcunhado A Casa dos Homens) feito no ano de 2013, período esse em que éramos o Coletivo 2ªOpinião, há um texto da Julia Spindel em que ela fala sobre o encontro com outras mulheres, com parceiras que, assim como a personagem que portava esse discurso, também apresentavam na própria carne e consciência as marcas do machismo e do patriarcado. É um texto de poesia direta, fala sobre amizade, sobre apoio entre mulheres, sobre uma faceta de relação bem diferente daquela que eu havia conhecido, totalmente baseada na tal disputa.

Descobri, pensando sobre isso tudo, que a imediata camaradagem que antes me seduzia é na realidade um grilhão – não só pra nós mulheres, mas também para os homens que aprendem a estar no mundo das relações de uma forma superficial e transitória. Homens e mulheres merecem conhecer os significados profundos da amizade e da alteridade, todos nós merecemos mergulhar uns nos outros.

Também percebi que entrar em competição com as outras mulheres e diminuí-las era uma grande perda de tempo construída pelo patriarcado e, portanto, pela vida útil para que esquecêssemos a potência de nossas trocas, de nossos corpos em comunhão, de nossas ideias em debate e construção.

Uma vez eu vi uma entrevista do Zé Celso Martinez Corrêa, diretor do Teatro Oficina Uzina Uzona, falando sobre quão perigosos eram os encontros reais entre homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens – tanto que imediatamente, após duas pessoas se aproximarem, o Estado Patriarcal já quer tudo regular: tem que casar, tem que procriar, tem que ser feliz pra sempre.

Imaginemos que não houvesse nada disso. Seria bom. Seria bom se não precisássemos categorizar os gêneros. Um dia poderemos abrir mão das nomenclaturas políticas. Ainda não porque estamos no meio do processo e as pessoas precisam ser visibilizadas. Não podemos generalizar as mulheres que somos porque o mundo não nos recebe de forma igualitária. Há  mulheres negras, brancas, indígenas, trans, travestis, asiáticas – cada uma no seu contexto, e todas precisam ser ouvidas.

Eu parto da Casa dos Homens, sem grandes alardes. Não saio pela porta dos fundos e tampouco pela porta da frente: pulo os muros com a força de minhas pernas e braços. Jogo as chaves fora, abro mão de meus privilégios ilusórios. Eu quero sair da Casa e não ficar presa nela: eu quero o mundo.

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Nesse oito de março do ano de 2016, no começo de um século de transformações, eu  desejo que cada dia se fortaleçam mais e mais as mulheres que lutam, arduamente, pela justiça social, pela igualdade, pela equidade, pelo fim das atrocidades racistas, machistas, sexistas. E desejo também que os homens possam cada dia mais perceber-se dentro desse processo, como participantes e apoiadores de nossas caminhadas. Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede. Só aqueles que decidem retroceder ou estagnar – feito mulas empacadas, solitárias em meio a um quarto e uma sala.

Paloma Franca Amorim –

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