Ministério da Cultura… para quem?

funarte

Em umas das apresentações do espetáculo Sobre as Baleias, fruto de uma batalha de produção autônoma da Coletiva Vulva da Vovó, não tivemos nenhum público. Isso se deu na temporada do Grajaú, primeira parada de nossas andanças pela cidade. 

Antes de achar que nosso espetáculo é imprestável ou que as ausências se motivam por uma falta de interesse dos espectadores a nossa volta, precisamos pensar em que estruturas de formação de público pela cidade nos apoiamos e construímos como artistas de teatro, como agentes culturais.

As sedes da Fundação Nacional das Artes de várias partes do Brasil (Recife, Belém, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte etc.) foram ocupadas contra o retrocesso impingido à população pelo governo Temer com a extinção do Ministério da Cultura, eixo de gerenciamento que existia há pelo menos trinta anos e que fora criado para estabilizar as políticas públicas culturais, sua difusão e produção pelo país. 

As transgressoras ações pela cultura têm sido marcadas historicamente por um peso simbólico que muitas vezes enfraquece a luta material pelo dado público, cívico, que a idéia de cultura encerra. Isso porque muitas vezes o direito à liberdade artística surge como uma pauta  neoliberal que empodera o artista sem, no entanto, espraiar-se para o plano social, coletivo. Nesse sentido, pergunto: o que foi feito a partir dos incentivos do Ministério da Cultura, ao longo dos últimos trinta anos, contempla a fatia da sociedade que realmente deveria ser assistida por um projeto de difusão das artes e de atividades de construção simbólica de mundo? 

A discussão pela Lei de Fomento às Periferias hoje pleiteada por grande parte da comunidade de artistas periféricos, munidos de ferramentas estéticas e políticas ao longo da última década, demonstra muito bem o quanto as políticas públicas culturais em São Paulo e no país se constituíram como estruturas centralistas e excludentes. Se não o fossem, por que haveria a necessidade de exigir um projeto de lei específico paras as localidades que estão à margem econômica e política das grandes cidades?

O público periférico representado pela massa popular não se relaciona amplamente, como devia, com o Ministério da Cultura.  Mesmo a Lei Rouanet, ontem tão criticada pelos artistas de esquerda e hoje usada como bastião de luta, não pode servir de argumento de difusão cultural nacional uma vez que está totalmente contaminada pelos alicerces privados que a sustentam: trata-se de um incentivo à cultura fundamentado na isenção fiscal, isso significa que sua prioridade é gerar lucro e não experiência estética, sua prioridade é alimentar os bancos e ampliar o poder das empresas privadas que se tornam as verdadeiras mediadoras do que vale ou do que não vale para a cultura brasileira. 

Por que lutar por uma estrutura já em ruínas? É evidente que entre o caminho do silenciamento e o do grito, escolhe-se o grito, porque é melhor ter a migalha do que passar fome. 

Esse texto é uma crítica à migalha. É uma crítica à disputa que os grupos de artistas muitas vezes fazem, abocanhando uma parte da miséria que nos é dada como sossega leão. 

Junto com o Ministério da Cultura caíram também o Ministério dos Direitos Humanos, o Ministério das Mulheres e o Ministério da Diversidade Racial; é importante perceber que esses ministérios apontavam uma articulação a nortear algum diálogo entre a reparação histórico-social e uma produção cultural que poderia de fato refletir a inclusão, como voz ativa, das fatias sociais silenciadas pelo Estado e pelas classes dominantes na história brasileira (isso é, a população negra, indígena, LGBT e de mulheres, fundamentalmente).

O Ministério da Cultura, solitário e quase sem dentes, a rigor, não tinha a força que hoje se detecta a partir de sua extinção. Essa sensação se dá pela ausência de uma idéia de garantia dos direitos, mas que na prática do passado não garantiu direito algum, pelo menos não para a população em geral que de fato era, objetivamente, a maior interessada no caso.

Ocupar é necessário, lutar é urgente, mas a avaliação de contexto como pressuposto de ação deve ser uma prioridade, para que as palavras de ordem dentro nas Funartes do Brasil não se tornem fictícias sobre um palco mal ajambrado que só os primeiros da fila conseguem bem enxergar.      

 

Paloma Franca Amorim –

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s