Cultura do Estupro – estética e violência

vitima
Menor de idade é vítima de estupro no Rio de Janeiro. Precisamos falar sobre a cultura do estupro.

Na última sexta-feira, dia 20 de maio de 2016, uma jovem de 16 anos, na zona oeste do Rio de Janeiro, foi dopada pelo namorado e só acordou no domingo, debaixo de 33 homens que a estupraram sistematicamente para puni-la por uma suposta traição.

Com o desdobramento da notícia, tardiamente veiculada pelos grandes canais de comunicação,  descobriu-se que o estupro da jovem faz parte de uma metodologia corriqueira na comunidade onde o namorado vive: se a garota comete algum engano na relação com seu parceiro deverá ser abusada sexualmente para aprender a respeitá-lo. A grande mídia chamou o caso de estupro coletivo (obviamente pelo número assombroso de estupradores que violentaram a jovem), mas há uma nomenclatura parecida, também importante, que não foi contemplada pelo discurso jornalístico: o estupro corretivo

O fato de não refletirmos sobre a inserção maquiavélica da correção pelo ato sexual no cotidiano demonstra quão naturalizada socialmente está a cultura do estupro, de modo que só nos tornamos capazes de abrir os olhos e sentir estupefatos os horrores do patriarcado nessa história a partir do absurdo número de homens que invadiram o corpo da moça. Foram 33. Mas todos os dias, de 11 em 11 minutos, um homem apenas é suficiente para destruir a vida de uma mulher.

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O embelezamento da violência. Glamourização de uma dor sócio-histórica e cultural.

A violência sexual permanece silenciada, subnotificada e avalizada pelas contendas machistas que se perpetuam em nosso dia-a-dia. Da mínima cantada, da mínima mão boba, da mínima piada, ao assassinato de uma mulher em um crime passional, todos os homens são responsáveis. Isso porque o problema não é individual como muito se tentou proclamar no decorrer da história do patriarcado, mas público, de responsabilidade de todos.  Embora essa percepção esteja cada vez mais ampliada na sociedade, o famoso em briga de marido e mulher ninguém mete a colher continua em vigor, como mentalidade, apesar de todo o avanço promovido, por exemplo, por dispositivos jurídicos como a Lei Maria da Penha que criminaliza a violência doméstica. 

Como núcleo de produção teatral, a Coletiva Vulva da Vovó propõe em suas discussões de grupo e pelos atos simbólicos que elaboramos (peças teatrais, ações poéticas de rua, saraus, festivais, etc.) um adensamento sobre a fundamentação dos fenômenos culturais que alicerçam a ética social e histórica da qual participamos como agentes e (co)agidos políticos. Nesse sentido, nossa parte na luta contra o patriarcado – estrutura comunitária essa que precede, inclusive, o sistema capitalista como forma de controle político e social – se dá pela problematização e transformação dos aparatos simbólicos que medeiam a relação entre sujeito, subjetividade e o mundo público.

Para alcançar nossos objetivos éticos e estéticos, pesquisamos sobre formas possíveis de organização de discursos políticos de modo a configurá-los metaforicamente para que não haja nenhuma espécie de reprodução da violência da realidade como alavanca de produção crítica. O que queremos dizer com isso?

Chega de formas racistas para se falar sobre o racismo. É fácil e ofensivo pôr em cena um negro acorrentado no tronco, levando chicotadas, para criticar a escravidão. 

Chega de formas machistas para se falar sobre o machismo. É fácil e ofensivo pôr em cena uma mulher sendo violentada para criticar o patriarcado. 

Chega de formas elitistas para se falar sobre a luta de classes. É fácil e ofensivo colocar um pobre chorando a própria desgraça como se fosse possível saber o que sente um pobre ao se deparar com a própria desgraça.

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Por que numa campanha anti-estupro a propaganda convida o homem a descolar as páginas forçosamente como se abrisse as pernas de uma mulher? – Para que ele perceba FAZENDO o que NÃO DEVE FAZER?

Essas predisposições da formatação estética partem de conceitos antecipados sobre o mundo e sobre a sociedade, ideais permeados por nossas bases de formação de visão de mundo (que são na grande maioria das vezes dominantes, ou seja, racistas, elitistas e machistas) – com a ausência da autocrítica esses conceitos antecipados não passam de preconceitos institucionalizados.

Por que é importante falar sobre esse aspecto de elaboração dos elementos simbólicos? Porque são eles que avalizam as ações das pessoas que habitam e constroem o mundo. É particularmente assustador o fato dos 33 estupradores terem filmado sua vítima nua, machucada e dopada, tecendo comentários misóginos sobre sua condição para, em seguida, postar o vídeo em redes sociais. Não há na situação nenhuma fagulha de constrangimento, e isso faz com que esses homens pareçam demônios, sociopatas, perturbados mentalmente. Não. São homens comuns, de comunidade, trabalhadores, são pessoas que poderiam ser nossas amigas, poderiam ser nossos irmãos, primos, pais, avôs.

A animalização desses homens comuns é uma forma de afastá-los das pessoas de bem. Chamá-los de monstros é uma forma de patologização, isso é, significa tratá-los como seres anormais (desse modo o crime de estupro seria justificado), mas surpresa: eles não são anormais. 

AGRESSÃO
Maniqueísmos de novela: o vilão bate e assedia. O bonzinho é um príncipe encantado. Será?

Eles são como qualquer outro homem cuja educação se deu pelas concessões de gênero e de sexualidade, uma educação que se realiza pelas vias sexistas, homofóbicas, transfóbicas, e que hoje continua existindo por debaixo dos panos através de piadas sem jeito, através do comentário consternador, do beijo roubado, da mão na perna etc. – isso para as fatias privilegiadas do contexto urbano, porque no conjunto amplo da sociedade (constituída majoritariamente pelas camadas populares), a lógica ainda é arcaica e baseada em princípios morais e éticos de deteriorização das mulheres e de seus símbolos cotidianos.

 

 

 

 

 

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