Naturaleza Muerta e As Deusas Sujas

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por Maria Fernanda de Barros Batalha

Há duas semanas assisti à peça Naturaleza Muerta da La Desdeñosa, seguida de debate com o historiador e provocador do projeto Jean Tible e a jornalista feminista Luciana Araújo, e comecei a escrever sobre a experiência, que foi forte, principalmente pelo turbilhão de sensações, inquietações e revelações que a peça causou nas mulheres presentes na plateia. Bem, fui escrevendo e quando percebi, já tinha cinco páginas falando sobre latinidade, ancestralidade, machismo e baleias! É ótimo que, em nosso tempo de informações compulsórias e opiniões obrigatórias, abra-se uma brecha, uma fresta para celebramos o feminino, as mulheres e suas lutas, reconhecermos suas dores e suas conquistas, um tempo de respiro que frutifica em reflexões, criações, pensamentos, tão necessários a nós mulheres, que sempre tivemos esse tempo negado.

Na Grécia Antiga, os gregos dividiam o tempo em dois: Cronos e Cairós, sendo Cronos a porção quantitativa (horas, medidas, datas), portanto masculina do tempo e Cairós, a porção qualitativa (sensação temporal, brechas e frestas no tempo, como quando sentimos que uma hora passou em um minuto), portanto feminina do tempo. Conforme os romanos invadem a Grécia e posteriormente a Igreja Católica assume o poder com seu calendário gregoriano, o Cairós, como tudo que é feminino, é esquecido. Pois bem, Naturaleza Muerta é um portal Cairós, em meio a esse Cronos em que vivemos e que hoje para nós, significa lucro, produtividade, utilidade. Ao fazer essa reflexão percebi que precisava fazer um recorte temático do texto, e resolvi falar sobre a importância de termos mulheres protagonistas da cena, mulheres negras protagonistas da cena e mulheres escrevendo teatro, e mulheres negras escrevendo teatro, resolvi falar sobre a vital importância de criarmos modelos femininos reais em cena, de vermos mulheres falando sobre ser mulher, recriando assim nosso imaginário que foi desenhando por homens desde o começo dos tempos. Todos os nossos modelos de comportamento foram traçados pelo pensamento masculino do que significa, ou do que eles querem que signifique, ser mulher: um ser frágil, inferior ao homem em todos os sentidos e que veio mundo para servi-los.

No livro Um Teto Todo Seu, Virginia Wolf faz um exercício de imaginação, criando uma irmã hipotética para Shakespeare, tentando desenvolver a premissa de que “nenhuma mulher poderia ter sido tão brilhante quanto ele”, dita por tantos críticos e historiadores. Ela imagina que seu nome seria Judith, e que ela teria a mesma inclinação para o teatro que o irmão, os mesmos desejos, inquietações e pulsões. Ela imagina que nas vésperas de seu casamento prometido, único destino possível para qualquer mulher naquela época, e ainda para muitas nos dias de hoje, ela faria uma trança de lençóis e fugiria para Londres, pela janela de seu quarto. Em Londres, ela buscaria refugio em um teatro, mas ao contrário do irmão ela teria as portas fechadas em sua cara ao som de “nunca nenhuma mulher poderá ser atriz”. Um dos diretores que trabalha nesse teatro fica com pena da garota e a acolhe em sua casa, ela acaba engravidando dele e, completamente infeliz com sua sina, ela se mata.

Virgínia então conclui que não poderia mesmo ter havido uma mulher tão genial quanto o Shakespeare porque o patriarcado a teria matado antes que ela se tornasse qualquer coisa que não fosse o que se esperava dela, pois historicamente às mulheres não é permitido o publico, apenas o privado. Assim como a personagem fictícia de Virgínia Wolf, as quatro personagens fictícias (duas mulheres brancas e duas negras) da dramaturga e atriz da peça Tatiana Ribeiro, fogem de suas realidades mesquinhas e reducionistas do que significa ser mulher (dentro do olhar patriarcal capitalista) em busca de suas identidades e de sua liberdade, a diferença é que Tatiana é uma mulher negra, brasileira, escrevendo em um país escravocrata, de maioria negra, em que o homicídio de mulheres negras cresceu 54% nos últimos dez anos, portanto esse “ser mulher” de maneira nenhuma é universal, e nem deveria, pois isso seria ignorar as nossas diferenças e portanto afastar-nos em nossas semelhanças, tudo que o patriarcado mais deseja, que percamos tempo criando guerras entre nós.

Não sabemos exatamente onde as quatro estrangeiras estão, e creio que elas também não o saibam, elas não se lembram de onde vieram e seus traços de personalidade são informados ao público por uma voz masculina em off, uma voz estrangeira àquelas mulheres, assim como elas são para si mesma. Elas, assim, como a baleia Moby Dick, romance que as personagens da peça discutem em um caloroso jantar, representam esse organismo enorme, e vivo, e pulsante e cheio de desejos de continuar vivo, esse organismo que resiste, que se recusa a ser caçado, assim como as mulheres tem feito através de séculos e séculos a fio. A baleia, que é o animal vivo mais antigo do planeta, é um potente símbolo de ancestralidade e memória e resistência. A historiadora Silvia Federici, nos conta que:

“A ancestralidade é a memória coletiva, é a habilidade de preservar a si mesma neste mundo que é maior que você, e o capitalismo tenta destruir nossas memorias, ele nos isola da natureza, das outras pessoas. Esse individualismo, em que ficamos fechados em nossa casa, acabou com o trabalho coletivo, tudo o que importa é o futuro, o progresso, o desenvolvimento. Isso enfraquece e esvazia a nossa existência. Porque você só pode resistir se se se sentir parte de um corpo maior que você, se conhecer a história de quem lutou antes.”

Sendo assim não é de se espantar que as quatro estrangeiras tenham dificuldades em acessar suas memórias, em um ambiente que parece seguro e isolado, mas que vive sob o olhar de um ser que vem de fora, ou seja, que faz o papel masculino do trânsito entre público e privado. As mulheres nunca saem, mas elas estão sempre na expectativa para que esse ser em trânsito retorne. Não sabemos quem é esse que controla o espaço em que as mulheres estão inseridas. Esse ser provocada um misto de medo e adoração. Invisível aos olhos do publico, ele faz inúmeras passagens durante a peça, as mulheres, sem saberem muito bem como agir quando ele aparece, o acompanham com seus olhares atentos e esperançosos, querendo ser aquela uma que será salva, que será escolhida, mas ele apenas passa e vai embora. Elas parecem sempre esperar que ele as salve de alguma coisa, que as salve de si mesmas. Exatamente como nos ensinam a maioria dos romances, filmes hollywoodianos, peça de teatro, novelas, etc: que as mulheres são rivais em potencial, e que são frágeis e precisam ser salvas.naturaloeza

A virada se dá justamente, quando as mulheres, fartas de assistirem as entradas e saídas do tal homem que só passa e nunca age, resolvem dançar ao som de uma banda, também invisível aos olhos do público. Ao passo que elas dançam, cada uma a seu jeito, elas vão se despindo de suas roupas e ver aqueles corpos feminismos nus, tão livres, tão diferentes entre si, dançando, sentindo prazer e posteriormente bebendo e rindo de suas mazelas e verdadeiramente se ouvindo sem julgamentos, em uma grande comunhão sagrada de mulheres, provoca algo na espectadora que é tão potente e tão bonito, um reconhecimento tão necessário, um acolhimento imprescindível. Nós não estamos acostumados a ver amor entre mulheres em cena, e eu não estão falando de lesbianismo, estou falando de mulheres que se amam, que se apoiam, que se ouvem e que não estão o tempo todo rivalizando por conta de homens, de suas aparência e de suas conquistas.  E é necessário, é urgente que cavemos cada vez mais esses espaços de expressão feminina, que criemos novas poéticas, novas estéticas, para que possamos criar novos modelos reais no imaginário das mulheres, para que paremos de reproduzir o machismo e usá-lo umas contra as outras, e acima de tudo, entendermos nossa força sem temê-la. Afinal, era essa a força das bruxas da Idade Média, queimadas na fogueira por estarem na linha de frente contra as imposições da Igreja e os proprietários de terra, e das Bruxas negras escravizadas que matavam seus filhos para que eles não precisassem cumprir seus destinos óbvios, e das Bruxas latinas, sempre lutando pelo bem comum, pelo alimento, pelas águas. O patriarcado sempre fará de tudo para que duvidemos de nossa força

A bela cena me fez lembrar de um pequeno, porém muito precioso capitulo do livro Mulheres Que Correm Com Os Lobos, em que a autora fala sobre as Deusas Sujas, esquecidas na história por abusarem de suas vaginas e mamilos e de seu humor, da ligação intima entre a sexualidade e o corpo com o riso, e como essa combinação é uma espécie de cura feminina que se perdeu ao longo dos anos, mas que tem resultados fantásticos. Bem, basta ver a reação das mulheres que assistiram à peça, no debate que se seguiu a ela: esse foi um dos momentos mais celebrados e mais tocantes para todas nós, pois aquela que vimos é a dança da liberdade, da libertação, pois após livrarem-se de suas roupas, elas começam a falar de si mesmas, de seus passados, elas assumem o ser mulher pelo olhar de cada um delas. Elas falam sobre moral, sobre controle, sobre aborto, sobre negritude, e estabelecem uma realidade muita valiosa: a de que nós mulheres, somos muito diferentes entre nós, elas celebram ali suas diferenças e fazem uma espécie de pacto sagrado\profano.

E, por fim, um dos trunfos da peça é que a dramaturga assume em seu texto, de forma poética porém direta, que existem diferentes tipos de opressão às quais estamos sujeitas todos os dias, e que elas dependem da nossa cor e da nossa origem social, e isso nos faz ver que podemos estar sim lado a lado na luta, na resistência, mas reconhecendo privilégios (ou a ausência da garantia de diretos) e desenvolvendo a consciência de que as mazelas de umas não são iguais as de outras, mas que podemos nos acolher e nos fortalecer, a final as mulheres são como as águas: quando juntas se tornam mais forte.

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NATURALEZA MUERTA

Facebook.com/naturalezamuerta2016/

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