BRANCO: A Encenação da Violência e a Estética Colonizadora

branco

por Vanessa Garcia

 

“As ferramentas do mestre nunca irão desmantelar a casa do mestre”

Audre Lorde

Em 2017, a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) teve como eixo constituinte a reflexão sobre a negritude, o racismo, o empoderamento e o protagonismo negro. O maior festival de teatro da cidade de São Paulo assume o racismo e decide promover o debate político e poético sobre o que socialmente significa ser negrx. Entretanto, apesar dos convites a artistas negrxs para comporem a curadoria, os debates e a equipe de críticas, há de se admitir que o núcleo “decididor” deste festival ainda é essencialmente branco, burguês, elitista e não-periférico, o que resulta na infeliz seleção de espetáculos de posicionamento no mínimo duvidoso no que diz respeito à contribuição com o debate pretendido. É o caso do espetáculo Branco: o cheiro do lírio e do formol, de concepção, dramaturgia e direção de Alexandre Dal Farra.

A obra pretende-se desafiadora daquilo que Dal Farra compreende como silêncio confortável do homem branco diante da tomada do lugar de fala pelx negrx. Ou seja, a peça parte da compreensão de que o sujeito social “homem branco” se coloca mais uma vez como privilegiado quando, frente à reivindicação por parte dx sujeitx negrx do lugar de protagonista na luta contra o racismo, esse branco recua e se exime da reflexão. A premissa, aparentemente legítima, se equivoca quando, contraditoriamente, Dal Farra confunde privilégio de poder ignorar a discussão, com colocar-se mais uma vez como sujeito de privilégios que, em uma sociedade racista, patriarcal e capitalista, são todos concedidos ao próprio homem branco em debate. Para me utilizar de termos e conceitos frequentemente caros a este sujeito “homem branco”, posso dizer que Dal Farra ignora, por exemplo, o conceito básico mcluhaniano de que o meio é a mensagem, ou seja, o dramaturgo escolhe ignorar o fato de que, ao se pretender como bravo discutidor de seu próprio racismo, ele se utiliza do mesmo lugar racista que sempre ocupou: receber dinheiro de editais públicos, bem como estrear no maior festival da cidade, são, historicamente, privilégios reservados aos brancos. Cabe ressaltar que as bancas e comissões de curadoria que selecionam projetos tais são compostas, em sua maioria, por homens brancos de classe média alta prontos a legitimar o trabalho de seus colegas. Essa estrutura perpetua um mecanismo apoiado na ilusão de uma meritocracia justa, mecanismo este fortemente criticado pela classe artística, mas somente quando não está no centro da discussão os esquemas de perpetuação de privilégios interiores a esta mesma classe.

Entretanto o racismo da peça não se limita apenas à sua premissa, mas permeia todo o texto e a encenação. O narrador se declara manifestamente racista, bem como admite não ter julgado ser necessário ler teóricxs e pensadorxs negrxs quando de suas pesquisas e assume que, ao escrever personagens negrxs, sequer se atentou ao fato de que todxs as atrizes e atores de seu grupo são brancxs e que, o mínimo a se fazer, seria convidar atrizes ou atores negrxs para compor o elenco. Além disso, o narrador revela que, durante o processo, foram convidadxs provocadorxs negrxs para contribuir com as reflexões éticas, mas este narrador, em seguida, admite que decide abandonar a opinião dxs provocadorxs para seguir seu caminho de escrita. Apesar do apontamento por parte dxs artistas negrxs convidadxs de que o primeiro texto escrito era agressivamente racista, o dramaturgo opta por manter algumas inserções deste texto na versão final. Dal Farra escolhe a violência de encenar o racismo sob o pretexto de estar contribuindo para a superação da questão. Talvez Alexandre acreditasse que, ao assumir e declarar seus racismos, ele estivesse já problematizando o lugar da branquitude, mas o máximo que consegue atingir com essa escolha é uma dimensão catártica, expurgando seus fantasmas racistas para que possa, então, viver em paz com a tranquilizadora certeza de que ele não é racista. A sensação que temos é que o dramaturgo deveria ter feito terapia, não uma peça de teatro. Certamente não uma peça de teatro sustentada por dinheiro público.

Não há salto crítico, não há uma dimensão pública que problematiza o racismo, e sequer há uma dimensão fabular interessante o suficiente para ater o espectador à linha narrativa. Dal farra constrói, na trajetória manifestamente ficcional da peça, uma família branca distópica, que se comunica precariamente e que desde a primeira cena da peça expele uma baba branca d
e seus corpos toscamente configurados. Na tentativa de problematizar esse lugar do branco burguês racista, Dal Farra consegue, no máximo, chegar ao meio do caminho, criando uma atmosfera semelhante àquelas de filme americano que pretendem criticar a classe média dos rednecks racistas e alienados. Mas, no caso de BRANCO, isso não se concretiza. A narrativa é truncada, pouco aprofundada e sustentada por clichês. Esta dimensão ficcional é o lugar onde poderia residir o trunfo da peça, mas infelizmente ela não alça voo.

BRANCO é uma peça que se propõe a discutir uma questão política muito latente nesse momento histórico em que vivemos, e o faz problematizando e reivindicando isabelbranco.jpgo lugar de fala do branco quando se debate racismo. É evidente que o homem branco tem não só o dever de realizar suas reflexões sobre o assunto, como, também, o direito de exprimir sua perspectiva. Entretanto, é preciso compreender que há um discurso de poder e de ideologia da elite artística do país quando uma peça que se propõe a investigar o prisma do branco sobre o racismo recebe prêmios de editais, tem sua estreia na MITsp e uma temporada confirmada em um espaço público, enquanto os grupos de teatro formados por negrxs, que lutam para seguir existindo, ainda são tão desprezados pelos circuitos principais.

Ao se perceber a importância de discutir o racismo, é uma hipocrisia e uma irresponsabilidade fazê-lo tomando mais uma vez para si o espaço que x negrx não tem autorização para estar. Seria mais político, mais “revolucionário” e esteticamente mais interessante se, ao ser laureado pelo edital, Alexandre se colocasse de fato em risco e burlasse o sistema, destinando o montante a um grupo que não tem o nome premiado e venerado como ele, admitindo e evidenciando a questão de que as mesmas figuras marcadas da elite branca paulistana vem recebendo, ano após ano, a contemplação dos editais públicos.

Resta dizer: não é somente lamentável que tal peça componha a programação de um festival que se propõe a colocar em foco o debate sobre a população negra, mas é também ultrajante que a polêmica e depreciativa repercussão do espetáculo findem por servir aos propósitos egóicos de seu idealizador e daquilo que ele representa.

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