Black Off: Canto aos Cães Raivosos

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por Vanessa Garcia

“Mesmo expondo-me ao ressentimento de meus irmãos de cor, direi que o negro não é um homem. (…) O homem é um SIM vibrando com as harmonias cósmicas. (…) O negro é um homem negro”

Frantz Fanon, 1963, em Pele Negra Máscaras Brancas

Em maio de 2015, no teatro do Itaú Cultural, a peça A mulher do Trem teve sua apresentação cancelada por manifestação do público contra prática de blackface presente na obra da Companhia Os Fofos Encenam. Quando deste evento, houve larga comoção da comunidade teatral, que, em parte, reconheceu seu privilégio, sua ignorância diante do tema e a necessidade de alargarmos o debate sobre questões que, até então, não alcançavam o teatro, sempre blindado por seu elitismo. Já uma outra fatia da classe teatral se agarrava aos seus privilégios, bradava censura e se revoltava, afirmando que a arte é território inteiramente livre, em que o simbólico e o poético podem transitar sem limitações éticas. Passados dois anos de adensamento das questões, o Itaú Cultural, dentro da programação da MITsp, recebeu, em março deste ano, o espetáculo Black Off, da artista sul-africana Ntando Cele.

Black Off é composta por duas partes: num primeiro momento, à moda de um stand up comedy, temos Bianca White, uma sul-africana branca, globetrotter, filantropa e autointitulada profunda conhecedora “dxs negrxs”. Uma espécie de alter ego de Ntando Cele, Bianca White – ou Branca Branca – se vale dos mais arraigados estereótipos racistas para discutir no que consiste a essência dx negrx e, assim, “ajudar” este povo, através da prática meditativa, a superar sua lamentável, porém transponível, escuridão interior. A ironia é evidente.

Ntando Cele constrói, através de Bianca White, uma crítica à largamente difundida (e proporcionalmente execrável) prática do blackface, uma vez que cria aquilo que, em tese, seria seu oposto: um “whiteface”. A performer, ao interpretar Bianca, está coberta por tinta branca, luvas brancas, peruca loiríssima e lentes azuis para esconder seu fenótipo negro ao interpretar uma personagem de origem caucasiana. A escolha é controversa e incisiva. Por meio dessa estereotipização – mecanismo historicamente colonizador -, Ntando desmonta o discurso dos que insistem em reivindicar a existência do “racismo reverso” – a ficção de que brancxs são vítimas do racismo assim como xs negrxs. A sul africana escancara, com muito humor e ironia, a enorme diferença simbólica que há entre um blackface e um whiteface. Pintar o rosto e o corpo com tinta preta é prática recorrente há muito no âmbito das artes cênicas, a fim de que atores brancxs pudessem representar personagens negrxs, sempre de forma jocosa e reducionista. O blackface reforça estereótipos raciais responsáveis por fortalecer o processo de naturalização do genocídio institucional do povo negro, fato que obviamente não se espelha em um whiteface.

Mas Black Off não se limita a essa discussão. Ntando Cele – artista, sul africana, negra, de pele escura, radicada na Suíça – busca discutir a viabilidade do fazer artístico dentro desta sua condição: pode uma mulher negra produzir arte? A irônica e prepotente figura de Bianca, incrível “sabedora” de tudo o que se refere axs negrxs, se relaciona com essa discussão, ao reforçar a pretensa universalidade da branquitude. Bianca White não reflete sobre seu lugar de fala, não compreende que por ser branca é inapta a falar sobre a vivência de umx negrx, pelo contrário, a comediante se autoproclama especialista em negrxs. A branquitude se mantém nesse lugar construído de que é sujeito universal, de que pode opinar e produzir conhecimento dominante sobre tudo, pois jamais se reconhece como ente local de uma cultura específica – a ocidental -, mas como porta voz da existência em sua neutralidade, em sua unanimidade. Tudo o mais é exceção, é folclore.

A peça, toda ela uma sucessão de valorosos socos na cara da branquitude, tem seu início com um vídeo em que o crítico de arte Henessy Youngman – persona criada pelo artista Jayson Musson – discute e ironiza justamente essa ilusória universalidade dx brancx como sujeito livre de rótulos sócio-culturais. Youngman, quando indagado sobre o que é necessário para se tornar um artista de sucesso, afirma que, em 98% dos casos, a fórmula é: 1) seja branco; e 2) seja um homem branco.

A construção da primeira parte é baseada nessa estrutura de um stand up comedy, desses de bastante mau gosto, em que piadas racistas são seguidas de mais piadas racistas. O público – apesar de formado por mais negrxs do que o que se costuma ver nas plateias paulistanas – ainda assim era composto em sua maioria por pessoas brancas, que, face à potência da cena construída, ao mesmo tempo em que gargalhavam do ridículo racista de White, se contorciam de constrangimento, seja porque se espelhavam na vileza da comediante, seja porque reconheciam em seus iguais, xs brancxs, a sujeira por baixo do tapete. Explodia aos olhos o racismo nosso de cada dia, logo no país da “democracia racial”, no país que jura ter superado a questão racial.

Ao final desta primeira parte, Ntando se livra de Bianca para ser só Ntando: limpa seu rosto diante da plateia revelando sua pele escura, tira os cabelos loiros de plástico libertando seus fios crespos trançados, livra-se da lente azul e encara o público do fundo de seus olhos negros. Estamos diante de uma outra pessoa.

Na segunda parte do espetáculo, a artista adquire uma força e uma potência absurdas. Bianca White, antes, ridicularizava a habilidade exclusiva dxs brancxs de produzir “arte complicada”, arte performativa, arte contemporânea. Ntando, despojada de seu alter ego branco, prova que a capacidade para produzir poéticas elaboradas e construir expressividade no plano do simbólico não é exclusividade branca. A performer lança imagens sem entregar significados ou intenções evidentes, sem simplismos, sem obviedades, ela não se interessa em explicar, ou dar uma aula ao público branco sobre a construção social do racismo. Ao contrário, Ntando constrói imagens que comunicam, criam significações plurais e fecundam nosso imaginário, mas sem desenhar um plano cartesiano de compreensão. Através da combinação entre a potente musicalidade agressiva do punk e a certitude dos ensaios sobre racismo escritos pelo filósofo Frantz Fanon, Ntando comanda um show que dá corpo a um discurso imagético sobre força, empoderamento, lugar de fala, urgência.

Vale ressaltar que a dimensão que o espetáculo atinge no Brasil é, indiscutivelmente, distinta daquela pensada para o público suíço. A peça é construída para ser vista por brancxs caucasianxs eurocentradxs. Quando feita para uma plateia com muitxs negrxs, ou mesmo muitos latinxs não-brancxs, a primeira parte certamente não é tão potente em seu objetivo de ser um incômodo político, quanto quando feita para um público de europeus brancos herdeiros diretos da tradição racista e xenófoba. Ainda assim, não perde em força estética e relevância. Mas é a segunda parte que atinge ambos os públicos: Ntando lança verdades impiedosas axs brancxs, ao mesmo tempo em que orquestra o empoderamento do público negro, que vibrava diante do protagonismo destemido de Ntando.

Black Off é obra empoderadora, dialógica e esteticamente ousada. A artista não tem medo de ocupar seu legítimo lugar de fala e jogar com extremos controversos, porque sabe que aqueles que se revoltam contra suas escolhas são os coléricos defensores do “racismo reverso”, sempre prontos a rugir pela manutenção de seus privilégios. E aí reside um dos principais méritos de Ntando: construir uma peça impiedosa que tem como alvo, precisamente, os cães raivosos.

 

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