Romeu e Julieta, Um Atentado

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por Paloma Franca Amorim

Escrita no final do século XVI por William Shakespeare, a tragédia Romeu e Julieta narra a trajetória de dois jovens amantes da cidade de Verona, filhos de famílias rivais da realeza italiana – classe essa, à época, tomada por expoente máximo da representação do humano e do universal. Reis, rainhas e cortesãos eram, para Shakespeare, protagonistas e objetos de discussão no universo ficcional porque – e fundamentalmente – também se constituíam  público alvo de suas obras.

O Heterônimos Coletivos de Teatro, fundado em 2012 por artistas egressos da Universidade de São Paulo, acaba de estrear o espetáculo Romeu e Julieta – Obra-Atentado em Homenagem aos que Morreram Lutando. O grupo recontextualiza a trama e as personagens de modo a aproximá-las de uma realidade cotidiana configurada sob o ponto de vista dos amantes socialmente oprimidos. Segundo a visão do grupo, o sujeito que ama é interditado não apenas pela moral das forças familiares, privadas, mas por todos os dispositivos de aniquilamento dos afetos que vigoram na sociedade moderna também em âmbito público.

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O coletivo busca tecer críticas sobre o romantismo afirmado no ocidente como um paradigma de comportamento e de expectativa amorosa, financiando ideologicamente as normas heteropatriarcais que secularmente regem as alianças afetivas entre os sujeitos. Para o Heterônimos Coletivos de Teatro, Romeu e Julieta não são indivíduos, mas expressões de uma idéia libertária e anárquica, um índice de confrontamento, dado esse que revela as matizes épicas da encenação. Há uma dupla de Romeus e uma dupla de Julietas apresentados como participantes de uma espécie de gincana na qual vencedores e perdedores são previamente conhecidos: os amantes morrem no final, e todos já sabemos disso.

Roland Barthes, crítico, ensaísta, semiólogo e sociólogo francês publica em 1977 o livro Fragmentos de Um Discurso Amoroso para evidenciar a marginalização do amor no contexto da produção de conhecimento. Barthes nos diz, na epígrafe da obra, que o discurso amoroso “foi completamente abandonado pelas linguagens circunvizinhas: ou ignorado, depreciado, ironizado por elas, excluído não somente do poder, mas também de seus mecanismos (ciências, conhecimentos, artes). Quando um discurso é dessa maneira levado por sua própria força à deriva do inatual, banido de todo espírito gregário, só lhe resta ser o lugar, por mais exíguo que seja, de uma afirmação”.  

O Heterônimos Coletivos de Teatro parece dialogar com a sentençaromeu2 barthesiana, posto que o mais importante de sua Obra-Atentado não é o processo de ruína dos heróis, mas a pulsação de sua resistência.

A Cena dos Amantes se apresenta como a síntese do espetáculo: os quatro Romeus e Julietas perdem-se uns nos outros em meio à neblina da noite pagã, tomados por um vapor ébrio que antes de ser a metáfora do esperado amor romântico, configura-se como uma experiência lisérgica entre jovens companheiros que, enamorados mais pela amizade do que pelo matrimônio, nasceram para tentar sobreviver à tradição e ao totalitarismo do sentimento amoroso institucionalizado. O movimento se destaca pela atmosfera lírica que engendra, produzindo uma suspensão do sistema caótico de signos desvelado no restante da peça –  atitude  essa corajosamente suicida de ressignificação das micropolíticas dos afetos e, portanto, do poder.

***

Romeu e Julieta – Obra-Atentado em Homenagem aos que Morreram Lutando cumpre temporada no Centro Compartilhado de Cultura, rua Brigadeiro Galvão, 1010, Barra Funda, às sextas (21h), sábados (21h) e domingos (20h), até o dia 28 de maio.  $20 inteira.

 

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