Leporifobia e o Gato Teodoro

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por Paloma Franca Amorim

No ensaio intitulado Do Sentimento do Fantástico, publicado na obra Valise de Cronópio em 1974, o escritor argentino Julio Cortázar discorre, a partir da imagem de seu gato Teodoro W. Adorno olhando para um ponto invisível no espaço, como se manifestam as operações do fantástico na produção literária moderna.

Na analogia de Cortázar, o gato Adorno consegue observar aquilo que à humanidade ainda não foi  possível, o ponto vélico, o eixo interseccional entre o fixo da realidade e o assombro imaginativo que constituiria o efeito estético do fantástico, esse que consequentemente gera no leitor de seus contos o que o escritor e crítico inglês Samuel Taylor Colleridge chamou de suspensão da descrença, ou seja, a aceitação por parte do  leitor do universo oferecido pela obra que anula a supremacia do racional sobre a ficção.

Em uma das passagens do texto, Cortázar nos diz:

Sempre soube que as grandes surpresas nos esperam ali onde tivermos aprendido por fim a não nos escandalizarmos diante das rupturas da ordem. (p.179)

O pensamento especulativo sobre as artes literárias, para Cortázar, sempre foi um convite à experimentação prática, por isso mesmo parece ser sempre tão difícil explicar o autor através de outras palavras e estruturas que não aqueles explorados e evidenciados por ele mesmo. É quase como se, metonimicamente, Cortázar fosse uma extensão humana da estética (e política) do fantástico.

O grupo de teatro paulistano Lacuna Criativa tomou para si o desafio de lidar com a obra Carta a Uma Senhorita em Paris, publicada em 1951 no primeiro livro de contos de Cortázar, Bestiário, transteodoropondo para a cena teatral o discurso originalmente produzido nos territórios da literatura.  O conto se dá em formato epistolar pelo qual o leitor se depara com a  trama de um personagem que, responsável por cuidar do apartamento de uma senhorita a passar temporada em Paris, percebe-se diante de um fato insólito estranhamente normalizado por sua compreensão: ele tem vomitado coelhos que se espalham aos montes pela residência, fazendo-lhe companhia.

O espetáculo Leporifobia, apresentado no mês de janeiro e fevereiro deste ano no Teatro da USP,  já pelo título aponta uma idéia de terror patológico causado pela presença de coelhos (leporino – próprio de lebre/ fobia – intolerância, aversão), contraposta à naturalização da presença de inúmeros coelhos que são vomitados pelo autor da carta.  

No espetáculo essa figura é revelada como uma moça. A base da narrativa é alterada do conto original para dar vazão a um discurso de gênero importante que interessa ao grupo como matéria de pesquisa e reflexão. Em cena, notamos uma mulher inquieta com o possível regresso do amante que se constitui também, metaforicamente, como o bando de coelhos que pouco a pouco vai tomando conta do espaço, destruindo os corredores e cômodos do apartamento que, a priori, deveria ser cuidado pela hóspede.

A palavra narrativa é o carro chefe na composição de Leporifobia, a mulher encarnada pela atriz Laís Trovarelli conduz o encadear dos eventos posicionando-se como autora da carta, ora apresentada em primeira pessoa, ora em terceira pessoa, de modo a tornar dinâmico o espetáculo através da oscilação entre o registro épico de interpretação e o registro dramático – esse nunca em termos severamente emocionais, o que confere complexidade às ações em cena em contraste com o que é dito.

A atmosfera musical atribui ao espetáculo uma condição potencialmente lírica, às vezes perdida quando o recurso da música e do ruído é utilizado em demasia sem estabelecer oposição entre silêncios e paisagem sonora.

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Os coelhinhos, cuja função é tão importante na peça quanto no conto original, são apresentados através de um coro silencioso que permeia todos os movimentos cênicos como imagens perturbadoras para o público, mas jamais para a mulher. Esse coro se materializa, portanto, como o ponto vélico literário citado por Cortázar em seu brilhante ensaio.  

Quando o fantástico me visita (às vezes sou eu o visitante e meus contos foram nascendo dessa boa educação recíproca ao longo de vinte anos), lembro-me sempre da admirável passagem de Victor Hugo: “Ninguém ignora o que é o ponto vélico de um navio; lugar de convergência, ponto de intersecção misterioso até para o construtor do barco, no qual se somam as forças dispersas em todo o velame desfraldado”. Estou convencido de que esta manhã Teodoro olhava um ponto vélico no ar.(…) Se em qualquer esfera do fantástico chegássemos a essa naturalidade, Teodoro já não seria o único a ficar tão quieto, pobre animalzinho, olhando o que ainda não sabemos ver. (p.179)

O coro de coelhos vomitados, concepção absurda e externa à substância da realidade factível, produz nos expectadores uma sensação de estranheza e distanciamento, ao passo que a reação da mulher diante dos mesmos elementos, absolutamente normal e cotidiana, desvela os termos contraditórios de sua leitura do real e, por conseguinte, da nossa. A mulher em cena é o gato de Cortázar, capaz de enxergar a linha fronteiriça entre a lógica material da realidade e a inventividade do fantástico, onde a poesia vibra em sua escala mais luzidia.

***

O espetáculo Leporifobia integra a programação da Virada Cultural 2017, em São Paulo. Será apresentado no Centro Cultural do Jabaquara, rua Arsênio Tavolieri, 45, Jardim Oriental. Dia 20 de maio, às 20h. 

 

  

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