Mulheres nas Artes – Aryani Marciano

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O trabalho de Aryani Marciano inaugura esse espaço no site da Vulva da Vovó onde pretendemos discutir a produção e experimentação artística de mulheres na cena contemporânea e na história das artes. 

Aryani é cantora, compositora, poeta, instrumentista e artista plástica. As múltiplas habilidades reverberam sobretudo em seu trabalho com a música, apresentado ao público através de saraus, vídeos e rodas de compositoras. Sua pouca idade também surpreende, com apenas 21 anos de idade a artista está para além das expectativas construídas, infelizmente, quando nos posicionamos diante de um quadro muitas vezes sofrível de protoartistas dessa mesma faixa etária.

Em tempos de aguda discussão sobre estética e racismo, tão veementemente apontada na última semana pela ocorrência do clipe de Mallu Magalhães “Você não Presta”, no qual são evidenciados corpos negros, fetichizados, sexualizados, besuntados em óleo, em contraposição à presença higienizada elegante da cantora em primeiro plano na maioria dos takes, Aryani por si só é o próprio manifesto de resistência étnica, estética e cultural da voz negra. A discussão crítica de sua produção deve ficar distante dos assombros de um pretenso envernizamento branco que poderia de forma rasa caracterizar o conjunto de composições que vão muito além do refinado e do bom gosto – a saber, esses adjetivos sempre foram historicamente utilizados para designar produções de pessoas de origem caucasiana que elaboraram, originalmente ou não, materiais estéticos referenciais para a cultura dominante.

Para expor essa condição racista da qualificação estética, podemos tomar por exemplo a apropriação do samba, cujo nascimento se deu nos morros e periferias dos eixos urbanos e rurais, territórios negros em razão de condicionamento histórico e social, por pessoas brancas de classe média que, segundo a crítica especializada, conferiram genialmente o tempero elegante da síncope que faltava à desordem da batucada.

ary2Justiça seja feita, o jornalista e crítico musical José Ramos Tinhorão, ainda vivo e lancinante, tem uma série de ensaios e artigos demonstrando por A mais Bê a realidade de mistificação das formas musicais populares do ponto de vista de classe e de raça no Brasil. Tom Jobim que o diga.

Mas falemos aqui de Aryani e não dos outros. 

As composições de Ary trazem em seu arcabouço uma temática urbana e política de emergencial importância. Em Quem Ama a Ama Preta, a cantora faz da palavra Ama uma ambiguidade para tratar sobre a solidão da mulher negra, tornando assim o amor romântico dentro de um sistema racista um paradoxo insuperável. A canção enredada por uma verve blues é entrecortada pelo rap, a rima que agilmente encadeia versos rascantes sobre os sistemas sociais excludentes que chegam a ponto de deletar corpos e subjetividades, antes de tudo o corpo e a subjetividade negros.

Em outra letra, Aryani nos diz:

Não sou mucama, nem ama

Não sou Sexo & As Nega

Não sou tua Globeleza (…)

O Volume do cabelo é o volume da minha voz(…)

E pede no refrão: Aumenta o volume!

Ao negar essas estabilidades vazias e estereotípicas da imagem da mulher negra, Aryani afirma um outro universo em construção e descoberta para ela e para tantas outras manas: Eu sou mulher preta, minha palavra é lei.  

Em Foda-se, a compositora revela mais uma vez a forte influência da black music de resistência norteamericana. Ary evoca pela própria interpretação os timbres mais potentes das cantoras da escola gospell, fazendo ressoar pela voz suas ancestrais musicais, das quais de imediato pode-se notar poética e politicamente Nina Simone que também estabeleceu em seu trabalho uma fricção entre a temática do abuso de gênero e racismo e a musicalidade jazzística.

Foda-se

Quem você pensa que é?

em mexer com mulher

E nem se importa  

Eu digo foda-se

Seu otário,

Eu vou usar minha saia curta

E quero que você exploda

Atualmente Aryani Marciano está junto com Beth Bé, também cantora e compositora, em um projeto musical chamado Pariah – ainda boas novidades vão surgir por aí! 

Salve Ary e suas experimentações! Que seus caminhos e escolhas estéticas possam influenciar tantas outras mulheres, e que nos lancemos todas pelas veredas mais potentes que a arte pode nos ofertar!  

***

 https://www.facebook.com/aryani.marciano/

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