Mulheres nas Artes – Obinrin Trio

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Lana Lopes, Elis Menezes e Raíssa Lopes criaram o grupo musical Obinrin Trio em abril de 2016.

As três faziam um som descompromissado com um violão e instrumentos de percussão quando a mãe de uma amiga sugeriu que formassem uma banda e rapidamente organizou um show na mesma semana para que as três apresentassem suas composições ao público.

Na mesma época, Lana e Raíssa, ainda no ensino médio,  participavam da construção e desdobramento do Movimento Secundarista em São Paulo, uma importante rede de ocupação de escolas públicas do estado que inspirou outras regiões brasileiras reivindicando melhorias na educação por uma pauta de viés estudantil, um processo raro na história dos movimentos de luta brasileiros no que diz respeito ao ensino básico formal e ao sistema educacional.

Elis, a mais velha do Obinrin com 24 anos, faz parte de um coletivo audiovisual  junto com outras nove integrantes, o “Nós Madalenas”, que tem por objetivo apresentar a voz das mulheres periféricas, negras e nordestinas. O grupo realizou um documentário que fomenta o debate sobre o emprego doméstico, uma profissão cuja origem se dá na história brasileira por herança escravocrata.

Em meio às práticas políticas, o Obinrin Trio não recusa o desafio de transformar os temas sociais em poética e vai fundo nas experimentações que partem das sonoridades da cultura popular.

Para Elis, essa influência se tece a partir da aproximação entre a banda e as expressões musicais da periferia que adere os sons da cultura regional, trazidos ao longo do tempo na bagagem de migrantes  do interior. Em uma dessas quebradas vive a cantora e compositora.

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A partir das vivências periféricas e grupais, Elis cria ao lado de Lana e Raíssa uma combinação refinada entre letra e música, enfatizando nos arranjos a relação de coralidade das três vozes, de modo a nos remeter a uma estética de formas coletivas vibrante na música brasileira na década de 70, quando grupos como A Barca do Sol, Som Imaginário, Novos Baianos, por exemplo, apareceram no cenário nacional. Além disso, nessa mesma época houve o surgimento do antológico disco “Clube da Esquina” assinado por artistas-amigos de Minas Gerais conjuntamente, em contraposição aos modelos de produção da  indústria fonográfica brasileira que já se tornava imperiosa.    

No último 8 de março, o Obinrin Trio disparou nas redes sociais o single “Elas Por Elas”, um canto de resistência de mulheres que de imediato se tornou referência para movimentos feministas e LGBTT’s. No refrão o coro entoa “Hoje é dia de luto/ Hoje é dia de luta/ Hoje é dia”, esses versos são a ponta da lança afiada nas demais estrofes que se desenvolvem sobre uma base rítmica de maracatu. A canção nasceu de um poema de Lana Lopes, do grupo partiu a ideia de musicá-lo. Segundo as Obinrin, a força do impacto do maracatu dialoga com o potência da mensagem presente na letra.

Num tempo em que a massificação cultural promove o achatamento dos referenciais populares, a pesquisa do Obinrin se revela como  uma estratégia de difusão dessas sonoridades, historicamente relegadas ao determinismo folclórico, no contexto de São Paulo. Essa é uma importante iniciativa que tende a substanciar o amadurecimento estético e político da banda e da personalidade artística de cada uma de suas integrantes. Trata-se de um começo interessante e aberto, sobretudo pelos bons auspícios contidos no significado da palavra iorubana Obinrin: mulher – eis aí mais um indicador da potência e sensibilidade de um trabalho que, decerto, se expandirá no tempo em favor de uma construção estética para além dos sentidos hegemônicos da arte.   

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Paloma Franca Amorim

 

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