Discursos plurais: ZONA Lê Dramaturgia

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por Vanessa Garcia

Sonhado como uma Zona Autônoma Literária – a TAZ, de Hakim Bey -, o ZONA Lê Mulheres se propõe a ser uma espécie de levante, de (des)organização efêmera e poderosa, mas com a especificidade de existir como espaço onde a voz literária das Mulheres possa ser escutada. Despretensioso e livre, o ZONA Lê Mulheres me pareceu esse espaço horizontal onde podíamos esbarrar em escritoras escondidas, expor textos inacabados, ousar-se poeta, revelar trabalho minucioso e devotado, descobrir o texto de escritoras d’outros tempos e de voz silenciada, escancarar o privilégio, debatê-lo. Sempre através da literatura feita por mulheres.

Quando o ZONA Lê Mulheres circunda-se em ZONA Lê Dramaturgia, há uma evidente medida de “institucionalização”: o lugar passa a ser uno, há uma curadoria de escritoras, as mediadoras ganham responsabilidades, o público é apartado pela iluminação e também pela convenção do palco italiano, há um canovaccio a ser seguido, há uma programação completa com uma série de encontros a serem entendidos em sua completude. Há de se dizer: saímos do espaço de uma Zona Autônoma Literária para nos estruturarmos em um ambiente mais conservador e menos anarquista em sua idealização.

Mas a pergunta que me faço é: e daí?

O conservadorismo que há na realização de um seminário sobre dramaturgia, com um caráter quase acadêmico e sisudo, tem seu quê de revolucionário quando o conteúdo pretendido é diverso daquele costumeiro em seminários de dramaturgia. Propor-se a ler, discutir e dar espaço tão somente às mulheres dramaturgas é ação inusual no seio do fazer teatral paulistano. Estamos habituados aos seminários, aos prêmios, aos teatros e às vagas todas serem destinadas à genialidade inerente dos homens brancos (contém ironia), enquanto as mulheres (especialmente as negras, trans, pobres, periféricas, não sudestinas, etc) são indiscutivelmente minorias em ambientes hegemônicos.

E me pego pensando na pergunta lançada da plateia às convidadas-dramaturgas: como é possível existir esse novo conteúdo atrelado às velhas formas?

É premissa que a separação dualista cartesiana entre conteúdo e forma já não serve para compreendermos as ações no mundo. Pensando no contexto de uma produção dramatúrgica feita por mulheres, quando outros conteúdos emergem a partir da tomada da voz por grupos historicamente marginalizados (negrxs, trans, mulheres, lésbicas, gays), outras formas surgem na medida em que se fazem necessárias a estes novos dizeres. Essas formas-conteúdo são outras, enquanto outra possibilidade de discurso que escapa à ordem eurocêntrica patriarcal. E enfatizo-as como outras e não como, novas, pois, ao pensá-las como novas, corre-se o risco de alinhá-las a conceitos como inovação e competitividade, tão caros ao capitalismo nos moldes neoliberais.

E o que se armou no ZONA Lê Dramaturgia da noite de 25 de agosto foi um espaço de emergência de vozes dessemelhantes, em que quatro textos de dramaturgas heterogêneas evidenciaram essa pluralidade conteúdo-forma. Nessa noite, para além da entidade abstrata Mulher, nos encontramos com as individualidades das dramaturgas Maria Fernanda de Barros Batalha, Paula Mandel, Ângela Ribeiro e Marici Salomão. Saltaram espontaneamente convergências entre os textos lidos, mas como bem pontuou a mediadora, Paloma Franca Amorim, essa confluência foi apenas uma possibilidade entre tantas outras. Quando diante do que escapa à universalidade branca e patriarcal, faz-se urgente fugir dos capengas reducionismos estereotipantes, assimilando que a produção dramatúrgica de mulheres é tão plural quanto o número de mulheres produzindo dramaturgia.

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