Os Famintos | Crítica

 

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Por Maria Fernanda de Barros Batalha

Nina: Que mundo maravilhoso! Como invejo o senhor! Ah, se soubesse! Como o destino das pessoas é diferente. Uns mal conseguem arrastar suas existência tediosa e apagadas, sempre igual a outras, sempre infeliz; mas, para alguns outros, como o senhor, por exemplo – um em um milhão – o destino reserva uma vida interessante, radiosa, repleta de sentido…O senhor é feliz…

Trigorin: Eu?Hum… A senhorita está aqui, falando da fama, da felicidade, de uma vida radiosa e interessante, mas para mim todas as belas palavras, me perdoe, são geleia de fruta, um doce que jamais como. […]

 ***

Em A gaivota de Anton Tchekov, a personagem Nina, aspirante à atriz, cultiva uma espécie de deslumbre, encantamento em relação à figura de Trigorin, escritor famoso. Ela tem uma visão completamente romantizada do que é ser artista, quase tão ingênua quanto o culto as celebridades que observamos em nosso mundo contemporâneo, como se a vida do artista fosse algo sublime, especial. Nina entende a inspiração como um dom no qual Trigorin está sempre submerso, e calcula que essa sensação deva ser indescritível. Ao longo da peça, a ilusão de Nina vai sendo desconStruída ao passo que ela desenvolve um romance com o tal escritor, muito mais velho do que ela, que a engravida e depois a abandona, fazendo com que seu sonho de se tornar uma grande atriz se desfaça na frente de seus olhos, de modo que Nina termina a peça louca.

Em seu monólogo final Nina diz: “Eu sou uma gaivota…Não, não é isso. Lembra que você matou uma gaivota com um tiro? Um homem chegou por acaso, viu uma gaivota e por pura falta do que fazer, matou a gaivota.” Dos muitos simbolismos que tem a figura da ave na peça, creio que uma das possíveis interpretações é que ela é Nina, essa artista que deveria estar em pleno voo, em plena ascensão, esbelta e graciosa, mas é abatida pelas mãos de um homem por capricho. O destino da mulher nas mãos do homem. Viginia Woolf já dizia que para que a mulher possa ser artista ela deve matar o anjo do lar, o que significa que deveria recusar o papel a nós relegado historicamente, de boa esposa, boa mãe, boa dona de casa. Na peça de Tchekov, Nina não consegue fazê-lo. No texto Os Famintos da dramaturga estreante Natália Xavier, o rumo da Artista, protagonista da peça, é completamente diferente.

Em Os Famintos, essa personagem central já começa quebrando a romantização do que é ser artista. Ela, uma escritora, está em plena crise criativa, com a pia cheia de louça pra lavar, sem dinheiro para pagar o próximo aluguel e sem uma linha escrita para mandar para editora de seu novo livro, o prazo se aproxima e ela nada tem para mostrar. A peça recorta exatamente esse momento de entressafra artística em que a inspiração se esvai e o mundo parece querer engoli-la em toda sua mediocridade. Ela se sente uma farsa e é ao mesmo tempo arrogante, invejosa. Às vezes quer, desesperadamente, trocar de lugar com seus amigos que tem emprego fixo e horário comercial, mas no minuto seguinte se delicia por não estar nessa prisão produtiva, desenvolvendo um trabalho que poderia ser feito por qualquer um, e logo depois desafia seus colegas a trocarem suas vidinhas perfeitas por sua vida de merda, como ela mesma descreve, e serem reféns de algo que parece estar além dela mesma: a famigerada inspiração aliada à completa instabilidade do artista freelancer. O interessante é que todas essas ações, a moda dos personagens Tchekovianos que nunca dizem o que realmente se passa dentro deles, acontecem internamente. A peça Os Famintos é um grande retrato, sem filtros, do que de passa dentro da mente e do corpo dessa artista que hora se acha muito melhor que os outros, hora se compara a uma pomba. Ao contrário da branquíssima gaivota de Tchekov, a Artista de Natália Xavier é a pomba, animal sujo que vive em meio ao lixo da cidade, essa praga urbana que está em todos os cantos mais inusitados de São Paulo, essa praga que mais queremos enxotar do que alimentar com pequenos pedaços de pão velho.

Outro assunto importante que o texto traz à luz é a questão de gênero. Não à toa a protagonista e único personagem da peça é uma mulher, tudo acontece a partir e em relação a ela. A crise artística está intimamente ligada com sua baixa autoestima e com uma transferência muito interessante: ao renegar o lugar da boa mãe, boa esposa, boa dona de casa, a protagonista parece entrar numa outra categoria, a da boa artista, como se por mais que quisesse não conseguisse se livrar das garras do patriarcado\capitalismo, com seu tempo cronológico, prazos, produção em série, sem poder acessar assim o lugar passivo e padecente da criação artística: o tempo sem tempo, ou cairós – a metade feminina e criativa do tempo segundo a visão dos gregos. Durante toda a peça, a Artista faz um movimento de machucar-se, ferir-se, tentando, desesperadamente produzir uma outra forma de existência, tentando libertar-se, despir-se dessa pele de pomba, sem perceber que é justamente aí que reside seu trunfo.

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Interessante também observar que o grande conflito da peça se dá dentro de um dos braços do patriarcado, o mito da rivalidade feminina que a autora deglute e cospe no papel de maneira totalmente inesperada e surpreendente: no pico de sua crise, a Artista recebe a visita inesperada de uma amiga escritora que acaba de lançar um novo livro. Elas bebem enquanto a amiga conta das críticas sobre seu livro e o quão maravilhoso foi o lançamento, a Artista ouve tudo aparentemente feliz e receptiva, mas internamente explode de raiva e inveja, explosão essa que culmina numa voraz vontade de deglutir a outra. As duas então se engajam numa tórrida cena de sexo seguida de canibalismo, rito através do qual finalmente a Artista pode integrar-se a essa outra mulher que ela tanto deseja ser. A Artista não quer ser um artista qualquer, ela não decide comer um homem, ela faz isso com outra mulher, uma mulher que admira. A metáfora está dada.

Sabemos que, historicamente, o papel de escrever peças de teatro é quase exclusivamente masculino, ao pensar em dramaturgia os nomes que surgem são Sófocles, Esquilo, Shakespeare, Dias Gomes, Nelson Rodrigues, Tennesse Willians, e talvez um flash de Sarah Kane. De uns tempos para cá, especialmente depois da ascensão da segunda onda feminista, que se deu da década de 60 até a década de 90, esse cenário vem mudando, mais mulheres veem reivindicando o papel de construtoras do imaginário, do inconsciente coletivo, da história – afinal, não é esse o papel histórico dos escritores e dramaturgos?

Pois bem, Natalia, em sua estreia como dramaturga, reivindica essa posição, não só ao colocar-se no lugar de quem cria, mas também ao colocar aquela que cria em cena criando uma bonita metalinguagem de si.

A produção possui uma equipe inteiramente feminina. A escolha estética pop e cheia de glamour em contraponto ao lamaçal explícito em que se encontra a personagem do texto, aliada a intervenções musicais ao vivo e uma direção precisa, deixa o material pulsante e ajuda a manter o ritmo frenético sustentado pelo ótimo jogo das atrizes Natália Xavier (que além de dramaturga também está em cena) e Vanessa Garcia (numa explosiva performance épica).

 

fotografia: Marina Wang

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