Palavra de Stela | Crítica

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Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo

Eu era ar, espaço vazio, tempo

E gazes puro, assim, ó, espaço vazio, ó

Eu não tinha formação

Não tinha formatura

Não tinha onde fazer cabeça

Fazer braço, fazer corpo

Fazer orelha, fazer nariz

Fazer céu da boca, fazer falatório

Fazer músculo, fazer dente

 

Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas

Fazer cabeça, pensar em alguma coisa

Ser útil, inteligente, ser raciocínio

Não tinha onde tirar nada disso

Eu era espaço vazio puro

(Stela do Patrocínio)

 

 

Ao assistir “Palavra de Stela”, espetáculo  da atriz Cleide Queirós realizado a partir da gravação de relatos de Stela do Patrocínio, mulher negra e pobre, internada compulsoriamente na Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, me peguei imaginando como seria se a própria Stela pudesse ver suas palavras vivificadas no palco.

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Talvez esse pensamento me tenha ocorrido justamente por um princípio crítico que me toma desde que o filme Estamira surgiu em minha vida, há mais de dez anos, e o tema da doença mental se revelou um poderoso filão discursivo para os artistas dessa era. O filme parece gerar um capital simbólico para os seus autores e não necessariamente para Estamira que depois de ser retratada nas enormes telas de salas nobres no mundo inteiro morreu pobre ocupando ainda a função de catadora de lixo, elemento esse que temperava o sabor do enredo fetichista da película: Estamira no meio do aterro sanitário produzia amor e filosofia através de um palavreado muitas vezes metafísico e produtivamente poético. Era o beijo do luxo na boca do lixo, tudo que as elites intelectuais mais se animam em consumir quando diante de uma obra artística dita social.

O teatro de Cleide, ao contrário do filme, promove uma justa homenagem desprovida de pretensões autorreferentes. “Palavra de Stela” revela uma finalidade muito lúcida, pela forma, de historicizar e trazer ao centro do picadeiro a performance do pensamento especulativo de Stela do Patrocínio, esse mesmo pensamento que ao ser explicitado em face de normas impositivas das políticas de saúde mental brasileiras da década de 60 foi taxado de loucura e doença. Stela do Patrocínio, nas narrativas gravadas na colônia, denuncia um processo violento e exaustivo de tentativa de cura por choques elétricos e medicações fortíssimas que a faziam se sentir ainda mais doente do que o próprio laudo médico acusava.

“Palavra de Stela” dá as mãos para a memória dessa mulher, vítima de racismo, isolamento e tortura manicomial e a põe de pé, com o pescoço erguido diante de um futuro que ela jamais poderia prever, a confrontar um público disposto a ouvi-la em estado de atenção e respeito – esse do qual a experiência estética faz frutificar também o apelo ético do convívio humanizado entre sujeitos e suas diferenças.

PALAVRA DE STELA 2 - DNG

Cleide, outra mulher negra e dona de uma história também marcada pela doença mental na família, veste o corpo sagrado de Stela, esse corpo tecido temporalmente pelo que restou de suas palavras,  e arrebata o público com seus olhos enormes de emanar um espanto que nos acresce a alma.

Nós espectadores entramos em estado de assombro por nos percebermos frente a frente de uma grande história vivida por uma grande mulher e revivida por outra grande mulher. A interpretação de Cleide é tão pormenorizada e intensa que até mesmo os elementos de encenação se fazem secundários para que Stela do Patrocínio aconteça no gesto interpretativo. O estudo claramente profundo da intérprete sobre “a personagem” e sobre o tema da saúde mental se descortina na peça de modo tão agudo que inevitavelmente acaba por colocar em evidência, por contraste, tudo que é excessivo enquanto discurso cênico.

Cleide, como Michelângelo em relação a sua estátua de Davi, esculpe uma Stela justa, sem caricaturas ou histrionismos. A atriz faz o que deve ser feito: extrai da pedra bruta, pré-monumental, tudo que não é Stela – porque Stela é também excesso, mas em uma medida própria, em uma medida só dela.   

***

Por Paloma Franca Amorim

 

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