Canto das dores do mundo (garrafa d’água navegando no ar)

reflexão de Amilton de Azevedo sobre “Sobre as baleias”, da Coletiva Vulva da Vovó, originalmente publicada na página de crítica teatral Ruína Acesa

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Foto: Marina Wang

 

“O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia dos ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.”
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“Osso a osso, fio a fio de cabelo, a Mulher Selvagem vem voltando. Através de sonhos noturnos, de acontecimentos mal compreendidos e parcialmente esquecidos, a Mulher Selvagem vem chegando. Ela volta através das histórias.”
(Clarissa Pinkola Estés – Mulheres que correm com os lobos) 
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Se, ao cantar, essa Mulher-lobo devolve à vida esqueletos, as mães-baleia de praças e maios, ao mergulharem em mares de ossos, de enchentes e sangue, cantam o direito à enterrar seus mortos. Antígonas do mundo moderno e contemporâneo, clamam por verdade e justiça: “nossos mortos têm voz”. “Sobre as baleias”, da Coletiva Vulva da Vovó, navega entre a denúncia e a poesia para contar sobre a deriva da mulher – seja a negra periférica dos nossos tempos ou mães e avós de ditaduras de outrora – frente não apenas ao tempo, à espera e ao não-saber mas essencialmente à sua possibilidade de sobrevivência e existência.

A dramaturgia de Maria Fernanda de Barros Batalha e a encenação de Paloma Franca Amorim transitam entre o cru e o simbólico com a sutileza necessária para que a obra atinja tanto a sensibilidade quanto a racionalidade do espectador. Há uma potência imagética neste diálogo de propostas cênicas com camadas metafóricas da dramaturgia que faz com que, por momentos, o espetáculo seja tomado por uma atmosfera lírica; o contraste é dado não apenas pelo tom acusatório e discurso direto dos quadros narrativos, mas também potencializado pelo uso de um recurso de acumulação do coro – que, em um preciso e incisivo spoken word, torna-se a cada aparição mais forte.

Tais contrastes fazem com que “Sobre as baleias” possa ser visto como uma obra de teatro popular na melhor acepção do termo. Seu discurso político não deixa dúvida de que é uma obra militante e com ensejo de estabelecer possibilidades de diálogo com os mais diversos públicos. Ao mesmo tempo, seu refinamento artístico, presente nas diversas áreas da criação – a iluminação de Marina Miguel delimita a arena da ação, uma ágora que será habitada pelas mais diversas figuras e linguagens, além de sutilmente indicar atmosferas e acontecimentos; os figurinos de Natália Xavier (que também assina a cenografia, simples e inventiva, junto com Amorim) apresentam-se em diálogo direto com as metafóricas baleias, ampliando camadas de leitura; a sonoplastia, de Anders Rinaldi (único homem da Coletiva) e Maria Helena Menezes, por vezes constrói a atmosfera lírica, por vezes corrobora com a realidade apresentada na cena – faz com que a obra se concretize como um raro encontro desta magnitude entre potência ética e potência estética.

Sem fazer concessões em seu discurso político, a Coletiva estabelece em cena um espaço possível de resgate histórico da memória de acontecimentos que teimam em permitir paralelos com nosso presente. Ao mesmo tempo, enquanto acompanhamos a trajetória de Dona Maria em busca de seu filho desaparecido, a luta pela resolução de seu caso se torna não apenas uma homenagem à luta dessas mulheres e uma denúncia do massacre incessante – seja policial, seja midiático, seja classista – enfrentado diariamente por elas e tantas outras; trata-se também do direito ao sonho. O sonho de que, ainda que mães e mulheres sigam sendo permanentemente portadoras do canto de todas as dores do mundo, os baleeiros sejam abalroados e se possa existir, mesmo à deriva.

 
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